Costumo comê-las às mãos cheias. Trinco-as devagarinho, degusto-as mastigando num movimento mandibular cadenciado à esquerda e à direita alternadamente. Descolo com a língua os pedacinhos agarrados ao palato e varro o sal que ficou a corroer-me os beiços. Devoro o bolo de uma vez só e remato com um quarto de litro de água sem gás. Nham

Agora que as horas estão moribundas é altura de passar tudo a limpo: reler as palavras escritas nas margens do tempo e riscar o que não interessa; apagar sublinhados que afinal não tiveram qualquer relevância; copiar as frases incompletas para as retomar em qualquer dos trezentos e sessenta e cinco dias e noites do ano que vem; pôr os pontos nos is; ruminar as pausas e escutar os silêncios; emendar as vírgulas; rever a ordem dos discursos e rematar as ideias com pontos finais.
Entornou o leite. Pôs o paladar a navegar num lago branco. Provou o sabor da indecisão. Pensou se o facto merecia o pranto e chegou a uma subtil e láctea conclusão:
“não adianta chorar sobre o leite derramado”
________________________
Imagem: "Pequeno dicionário ilustrado de expressões idiomáticas", de Marcelo Zocchio e Everton Ballardin
Sentada de frente. A olhar o tempo. A ajustar a lente.
A gosto.
Young. Smart. Rush. August.
All you need is a daisy and a dream.
________________________________________
Imagem: Maria Madalena por Pietro Perugino (c. 1500)
o dia
o rio
os meios
___________
a sombra seca
a língua muda
Des glaneuses, Millet (II), Jean-François
Verão
Julho
Millet
camponeses
seara
trigo
pão
fome
negra
noite
sonho
inconsciente
desmaio
hospital
doença
odor
cadáver
morte
má sorte
vento
força
volta
curva
caminho
vereda
campo
milheiral
cinema
ruminantes
girafa
Africa
Out of Africa
Dinamarca
lego
brinquedo
criança
sorriso
esperança
verde
fresco
água
nascente
rega
seara
camponeses
Millet
Julho
Verão
John Laroche - You know why I like plants?
Susan Orlean - Nuh uh.
John Laroche - Because they're so mutable. Adaptation is a profound process. Means you figure out how to thrive in the world.
Susan Orlean - [pause] Yeah but it's easier for plants. I mean they have no memory. They just move on to whatever's next. With a person though, adapting almost shameful. It's like running away.
Adaptation, Directed by Spike Jonze, 2002
Maga Patalógika veio mostrar-me esta sua futilidade na véspera da partida para a milionésima tentativa de roubar a Moeda Número 1 ao Tio Patinhas. Disse-lhe que uns mata-baratas assim não eram nada práticos para viajar de vassoura, que havia nisto muito desperdício de papel, falei da causa ambiental, mas ela veio com aquele discurso sobre a eficácia de certos meios para se alcançar determinados fins e não houve maneira de a demover pois, como todos sabemos, há bruxas para tudo.
_________________________________
Imagens: Paper Shoes by Violise Lunn
Transplantar a árvore. Devolvê-la às raízes. Deixá-la viver os dias felizes da sagração da Primavera. Ajudá-la a conceber as folhas e os ramos verdes, a brotar a seiva e a água de matar sedes citadinas. Procurar o azul da serenidade nos meandros negros das nuvens de fumaça. Clarear as tenebrosidades do desenvolvimento e perder os vícios da modernidade. Mondar as ervas daninhas das plantas e das flores nos jardins empedernidos. Encher os dias infantis de esperanças. Dar espaço aos gestos e aos perfis enegrecidos das crianças. Aumentar a nitidez ao espaço desfocado. Desejar a face mais bonita da cidade escondida pelo manto anoitecido da imperceptibilidade.
Devolver fragmentos e consistência às paredes doentes, artificiais, inseguras e epidémicas da metrópole. Desfazer a imagem da ruína e da incerteza. Ponderar a possibilidade de recriação da cidade usando, apenas, a integridade e a incandescência de uma rosa. Flor do destino que dá beleza e aponta o caminho, mais seguro, para se chegar a um horizonte que todos conhecemos pelo nome de Futuro.
________________________________________
beyond the urban shape, Alexandre Farto 2006
spray, ink and cardboard on walldetail - photo by luis colaço
________________________________________
Una rosa candente, Motti Mizrachi 2003
Circundar um espaço. Vazio. Frio. Rio de ausência em constante permanência. Toucar a íntima nostalgia, a suavidade estática da soada translúcida do dia.
Tempo indisposto. Rosto sem face. Forro posto que não deixa vazar o canto. Gesto distante que não leva o colar ao colo, que não veste a luva à mão.
Profundidade ensimesmada.
Branca fachada que pode ser tudo em tons de nada.
_________________________
Desenho de Maria Inês Santos
______________________________
Galo de Barcelos de Manuela Pinheiro
Preso por ser cão
Alguém deixou a Primavera de mãos atadas e largou a chuva à mão de semear.
_______________________________________
Ilustração de Alexandra Higlett
.- ... -- .. .-.. . .. ... - .... . -.-. .... --- ... . -. ...- . .... .. -.-. .-.. . ..-. --- .-. .- .-.. .-.. .- -- -... .. --. ..- .. - .. . ... .... . .-. -- .- -. -- . .-.. ...- .. .-.. .-.. . --..-- .--. .. . .-. .-. . --..-- .. ...-
__________________________
Imagem de Uffe Christoffersen
De dia, a poesia, o esplendor, o som do coração, a aragem macia, o rodopio do beija-flor, o canto da cigarra, a euforia. De noite o talhe da foice, a escuridão, a voz da razão, o vento agreste, a alienação, o pio da coruja, o pesar do cipreste.
No processo de recriação rompeu com a tradição. Deixou de ser hábito que enfeita a mesa e passou a auto-estrada bordada num deserto de alcatrão. Sem destino certo nem placa de direcção. Ainda assim, foi pequena a promoção curta a viagem, breve o prazer. Na verdade o que pretendia era um belo dia passar a ser.
____________________
Fotografia de Chema Madoz
Pontes Passagens Horizontes miragens Sombras amortecidas Águas estremecidas
Pedras seixadas Marés desalmadas Alicerces resistentes Esteios coniventes
Perspectiva paragem Nostalgia paisagem Silhueta estacionada Mariposa sem meta
Borboleta enredada Nos raios da roda De uma bicicleta.
Imagem: Weekend Rituals | Photography by Décio©2009
contar os arcos multiplicar os passos quebrar o cimento abrir os olhos ao convento descobrir o que vai lá dentro acender a luz à sombra aquecer o tempo
Sempre-viva despertou fresca e viçosa. Banhou-se na altivez orvalhada dos plátanos suburbanos e secou-se na aragem amena e afectuosa que, ao romper da bela aurora, soprava do quadrante Norte. Envergou o uniforme e partiu rumo à cidade em missão especial que se adivinhava intrincada e tenebrosa.
Afinal a repartição não era tão Kafkiana como espalham por aí alguns cidadãos mal intencionados. Nem chegou a haver processo. Umas alegações e a exposição de razões foram o bastante para que a desembargadora logo assumisse o seu lado profissional.
Ao abrir dos outros serviços já Sempre-viva, obrigação cumprida, descia a grande avenida a passos largos. De um lado estava tudo assim e do outro tudo assado. Só a tonta da aragem divertida e folgazona vinha a chocalhar as copas das árvores provocando a queda livre das flores lilases. A calçada nua, repisada, encardida e agradecida deixava-se tapar pelo manto voluptuoso e perfumado.
Ao chegar à vida real, Sempre-viva aplaudiu a eficiência que ajudou ao sucesso da função. Depois entregou-se ao prazer de tentar decifrar o incorpóreo como se não tivesse mais nada que fazer.
_______________________________
Fotografia de Azttlan/Alan Zabicky
. perfil
. a
. acácias
. agosto
. ah!
. ambição
. ambíguo
. animais
. bobcat
. bruges
. cara
. casa
. cenários
. chuva
. cidade
. cinema
. cobrão
. crescer
. daisy
. deleites
. delícias
. desígnio
. destino
. diálogo
. dream
. dueto
. elijah
. esencia
. esvaecer
. fachada
. fado
. feelings
. flowers
. legenda