Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
De fazer crescer água na boca

 

 

Costumo comê-las às mãos cheias. Trinco-as devagarinho, degusto-as mastigando num movimento mandibular cadenciado à esquerda e à direita alternadamente. Descolo com a língua os pedacinhos agarrados ao palato e varro o sal que ficou a corroer-me os beiços. Devoro o bolo de uma vez só e remato com um quarto de litro de água sem gás. Nham


 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:42
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Domingo, 3 de Janeiro de 2010
Esperar sentada
 
 
 
 
 
 
 
 
 
- O que faço aqui sentada? Estou a ver se as palavras vêem.
 
 
 
 
 
 
 
 
____________________________________________
Frédéric Bazille (1841-1870) The Pink Dress,  Paris, Musée d'Orsay
© RMN (Musée d'Orsay) / Hervé Lewandowski

 



publicado por Graça Costa Santos às 19:02
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Sábado, 2 de Janeiro de 2010
Escrito no verso

 

 

 

o dia minguante o corpo ancorado o olhar navegante

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 13:22
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
Passado a limpo

 

 

 

 

Agora que as horas estão moribundas é altura de passar tudo a limpo: reler as palavras escritas nas margens do tempo e riscar o que não interessa; apagar sublinhados que afinal não tiveram qualquer relevância; copiar as frases incompletas para as retomar em qualquer dos trezentos e sessenta e cinco dias e noites do ano que vem; pôr os pontos nos is; ruminar as pausas e escutar os silêncios; emendar as vírgulas; rever a ordem dos discursos e rematar as ideias com pontos finais.

 



publicado por Graça Costa Santos às 12:14
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Essências. Evidências. Transcendências

 

 

 

 

Entornou o leite. Pôs o paladar a navegar num lago branco. Provou o sabor da indecisão. Pensou se o facto merecia o pranto e chegou a uma subtil e láctea conclusão:

 

 

“não adianta chorar sobre o leite derramado”

 

 

 

 

________________________

Imagem:  "Pequeno dicionário ilustrado de expressões idiomáticas", de Marcelo Zocchio e Everton Ballardin

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 20:19
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Sábado, 29 de Agosto de 2009
Escrito no verso

 

 

 

 

 

 

Sentada de frente. A olhar o tempo. A ajustar a lente.

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 21:20
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
Esvaecer

 

 

 

 

 

A gosto.

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 17:44
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Sábado, 22 de Agosto de 2009
Choro m.i.u.d.i.n.h.o

 

 

 

O choro m.i.u.d.i.n.h.o

 

de

Itzhak Perlman

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:02
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Domingo, 2 de Agosto de 2009
Ouvir A gosto

 

 

 

Young.   Smart.   Rush.   August.

 

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 10:00
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Sábado, 1 de Agosto de 2009
Feel the flower

 

 

All you need is a daisy and a dream.

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 21:39
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Quarta-feira, 22 de Julho de 2009
O dia da Santa

 

 

 

 

aquela que mais amou

 

 

 

 

 

 

 

________________________________________________

Imagem: Maria Madalena por Pietro Perugino (c. 1500)

 



publicado por Graça Costa Santos às 19:45
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Riscos ao meio

 

 

 

 

o dia 

o rio

os meios

___________

 

a sombra seca

a língua muda

 

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 13:19
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Percurso Quintilis


 

Des glaneuses, Millet (II), Jean-François

 

 

Verão

Julho

Millet

camponeses

seara

trigo

pão

fome

negra

noite

sonho

inconsciente

desmaio

hospital

doença

odor

cadáver

morte

má sorte

sentimento

vento

força

volta

curva

caminho

vereda

campo

milheiral

pipocas

cinema

ruminantes

girafa

Africa

Out of Africa

Karen Blixen

Dinamarca

lego

brinquedo

criança

sorriso

esperança

verde

fresco

água

nascente

rega

seara

camponeses

Millet

Julho

Verão

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 20:29
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Adaptation

 

 

John Laroche - You know why I like plants?

 

Susan Orlean - Nuh uh.

 

John Laroche - Because they're so mutable. Adaptation is a  profound process. Means you figure out how to thrive in the world.

 

Susan Orlean - [pause] Yeah but it's easier for plants. I mean  they have no memory. They just move on to whatever's next. With a person though, adapting almost shameful. It's like running away.

 

Adaptation, Directed by Spike Jonze, 2002

 



publicado por Graça Costa Santos às 21:24
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
A importância da imagem

 

 

 

Maga Patalógika veio mostrar-me esta sua futilidade na véspera da partida para a milionésima tentativa de roubar a Moeda Número 1 ao Tio Patinhas. Disse-lhe que uns mata-baratas assim não eram nada práticos para viajar de vassoura, que havia nisto muito desperdício de papel, falei da causa ambiental, mas ela veio com aquele discurso sobre a eficácia de certos meios para se alcançar determinados fins e não houve maneira de a demover pois, como todos sabemos, há bruxas para tudo.

É verdade que o embrulho tem a sua importância, mas não há papel que consiga disfarçar por muito tempo o chulé maléfico de uns pés de bruxa. Quanto ao Tio, todos sabemos que há tios e tios e nem todos olham apenas para as patinhas que têm na frente, preferindo um olhar mais demorado para avaliar o tipo de interlocutor. Gente como o Patinhas não corre riscos com qualquer salteador.

 

 

 

_________________________________

Imagens: Paper Shoes by Violise Lunn

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:21
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Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Recriação

 

 

 

Transplantar a árvore. Devolvê-la às raízes. Deixá-la viver os dias felizes da sagração da Primavera. Ajudá-la a conceber as folhas e os ramos verdes, a brotar a seiva e a água de matar sedes citadinas. Procurar o azul da serenidade nos meandros negros das nuvens de fumaça. Clarear as tenebrosidades do desenvolvimento e perder os vícios da modernidade. Mondar as ervas daninhas das plantas e das flores nos jardins empedernidos. Encher os dias infantis de esperanças. Dar espaço aos gestos e aos perfis enegrecidos das crianças. Aumentar a nitidez ao espaço desfocado. Desejar a face mais bonita da cidade escondida pelo manto anoitecido da imperceptibilidade.

 

 


 

Devolver fragmentos e consistência às paredes doentes, artificiais, inseguras e epidémicas da metrópole. Desfazer a imagem da ruína e da incerteza. Ponderar a possibilidade de recriação da cidade usando, apenas, a integridade e a incandescência de uma rosa. Flor do destino que dá beleza e aponta o caminho, mais seguro, para se chegar a um horizonte que todos conhecemos pelo nome de Futuro. 

 

 

 

 

_________________________________________________
beyond the urban shape, Alexandre Farto 2006
spray, ink and cardboard on walldetail - photo by luis colaço

 


___________________________________________________________
Una rosa candente, Motti Mizrachi 2003

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:07
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Domingo, 24 de Maio de 2009
Tudo em tons de nada

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 Circundar um espaço. Vazio. Frio. Rio de ausência em constante permanência. Toucar a íntima nostalgia, a suavidade estática da soada translúcida do dia.

 
 
 

 

Tempo indisposto. Rosto sem face. Forro posto que não deixa vazar o canto. Gesto distante que não leva o colar ao colo, que não veste a luva à mão.

 

Profundidade ensimesmada.

Branca fachada que pode ser tudo em tons de nada.

 

 

 

 

 

 

__________________________________________
Ana Vieira, Toucador, 1973 (Colecção do CAMJAP)
 


publicado por Graça Costa Santos às 21:37
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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009
A voz de uma avó

 

 

A Senhora D. Conceição pediu que lhe dessem uma mão para levar a bagagem. Sacos, embaraços e uma mala de porão. As meninas ofereceram as quatro mãos e lá foram linha abaixo desde a casa do vale até à estação. Elas atrás ajoujadas sustendo as batidas do coração, a Senhora à frente num passo apressado porque o comboio chegava à tabela e ela queria um lugar junto à janela. Ainda longe da estação o sol começava a embrenhar-se no bosque e o lusco-fusco a transformar-se em susto. Era o dia a cair e a noite a chegar. A Senhora olhava para trás, o rosto num esgar de fazer tremer. Desesperava-se:
- Tenho que me benzer! Ora esta, o que havia de me acontecer…!!!
As meninas carregadas, cansadas e assustadas sentiam uma grande aflição. Julgavam vislumbrar por entre os pinheiros o homem do saco e atrás dos sobreiros o bicho papão. Queriam desistir, largar a bagagem e fugir, mas a Senhora não as deixou ir. Prometeu-lhes algum dinheiro se conseguisse chegar a tempo ao apeadeiro. E chegou. Estava o comboio a entrar na estação. Depois de instalada, já o expedidor assobiava para dar a partida, D. Conceição ergueu a mão enluvada e acenou às miúdas com uma expressão contrariada. As pequenas paradas no cais, sorriram por entre os dentes e, devolveram a despedida jurando para nunca mais.
A grande aventura começava então, no seio das sombras e da escuridão. O medo apareceu para as acompanhar. Elas não queriam mas ele fez questão. A mais nova gemia e a mais velha tremia. Fantasmas traquinas pulavam no chão, silhuetas enormes bailavam no ar e os lobos ao longe a uivar…a uivar… E as vozes, as vozes, à frente e atrás, em cima e em baixo, por todos os lados pareciam querer censurar pecados. Nossa Senhora lembre-se de nós, Nossa Senhora perdoe os culpados, Senhora Nossa não esqueça os aflitos!!!
-Ó raparigas!!!! Alguém descia a linha aos gritos.
Aquele brado…aquele grito, era a expressão de um coração aflito, era o aroma das torradas, o sabor do pão-de-ló, o borralho quentinho na chaminé, o candeeiro que se acendia ao serão, as histórias e lengalengas, os pés assentes no chão. Era uma voz só, excepcional e única. Era a voz de uma avó.

 

 

 

_________________________

Desenho de Maria Inês Santos

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:34
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Sábado, 16 de Maio de 2009
Concerto de goela clássica

 

 

 

O famosíssimo de Barcelos em digressão pelo país. Estava esta tarde no palco de uma reputada capoeira da Rua Direita em Óbidos a dar um concerto de goela clássica em Có-Có-Ró-Có-Có Maior. As admiradoras tagarelavam esganiçadas e alvoroçadas nos poleiros enquanto batiam as asas ao som da música. Com tanta agitação, foi impossível sentir a excelência do canto e o verdadeiro talento do símbolo nacional. No final, alguém lhes cacarejou de modo violento que nos concertos de goela clássica não se grulha daquela forma. Elas não quiseram saber e foram bicar o pão dos sacos, experimentar os aventais, limpar os bicos aos panos de cozinha, esburacar as bolsas e, por fim, aproveitaram para descomer nos azulejos. Que doidas suínas! Nem deram pela saída do artista que, meio entristecido com a falta de pedido de autógrafos, lá foi embora rumo a Lisboa para mais uma interpretação ao vivo numa das lojas de souvenirs ali aos Restauradores.

 

 

______________________________

Galo de Barcelos de Manuela Pinheiro

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:34
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009
Destino

 

 

 

Preso por ser cão

 

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 22:55
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
À mão de semear

 

 

 

 

 

 

Alguém deixou a Primavera de mãos atadas e largou a chuva  à mão de semear. 

 

 

_______________________________________

Ilustração de Alexandra Higlett



publicado por Graça Costa Santos às 23:17
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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Impressão

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 22:16
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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009
Olá

 

Cumprimento seco; Carinhosa saudação; Gesto de educação; Indiferença; Admiração! Toque de paixão; Campainha; Máscara;  Bater de coração; Sentimento; Doce e frio no Verão; Interjeição!


 


publicado por Graça Costa Santos às 23:51
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
-... . .- .-- .- .-. .

 

 

  

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Help desk

 

 

__________________________

Imagem de Uffe Christoffersen

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 11:14
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Domingo, 26 de Abril de 2009
Primavera XXI

 

De dia, a poesia, o esplendor, o som do coração, a aragem macia, o rodopio do beija-flor, o canto da cigarra, a euforia. De noite o talhe da foice, a escuridão, a voz da razão, o vento agreste, a alienação, o pio da coruja, o pesar do cipreste.

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 23:21
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Aspiração

 

 

 

 

 

No processo de recriação rompeu com a tradição. Deixou de ser hábito que enfeita a mesa e passou a auto-estrada bordada num deserto de alcatrão. Sem destino certo nem placa de direcção. Ainda assim, foi pequena a promoção curta a viagem, breve o prazer. Na verdade o que pretendia era um belo dia passar a ser.

 

 

 

 

____________________

Fotografia de Chema Madoz

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 00:40
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009
Densidades

 

 

Pontes Passagens Horizontes miragens Sombras amortecidas Águas estremecidas

Pedras seixadas Marés desalmadas Alicerces resistentes Esteios coniventes

Perspectiva paragem Nostalgia paisagem Silhueta estacionada Mariposa sem meta


Borboleta enredada Nos raios da roda De uma bicicleta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem: Weekend Rituals | Photography by Décio©2009



publicado por Graça Costa Santos às 17:24
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009
Desígnio

 

 

contar os arcos  multiplicar os passos  quebrar o cimento  abrir os olhos ao convento  descobrir o que vai lá dentro  acender a luz à sombra  aquecer o tempo

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 13:08
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Terça-feira, 31 de Março de 2009
Escrito no verso

 

 
 
 
 
 
 
 
por | ter | uma | câmara | ao | pé | de | mim
 

 



publicado por Graça Costa Santos às 21:21
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Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Missão intrincada

 

 

 

Sempre-viva despertou fresca e viçosa. Banhou-se na altivez orvalhada dos plátanos suburbanos e secou-se na aragem amena e afectuosa que, ao romper da bela aurora, soprava do quadrante Norte. Envergou o uniforme e partiu rumo à cidade em missão especial que se adivinhava intrincada e tenebrosa.

Afinal a repartição não era tão Kafkiana como espalham por aí alguns cidadãos mal intencionados. Nem chegou a haver processo. Umas alegações e a exposição de razões foram o bastante para que a desembargadora logo assumisse o seu lado profissional.

Ao abrir dos outros serviços já Sempre-viva, obrigação cumprida, descia a grande avenida a passos largos. De um lado estava tudo assim e do outro tudo assado. Só a tonta da aragem divertida e folgazona vinha a chocalhar as copas das árvores provocando a queda livre das flores lilases. A calçada nua, repisada, encardida e agradecida deixava-se tapar pelo manto voluptuoso e perfumado.

Ao chegar à vida real, Sempre-viva aplaudiu a eficiência que ajudou ao sucesso da função. Depois entregou-se ao prazer de tentar decifrar o incorpóreo como se não tivesse mais nada que fazer.

 

_______________________________

Fotografia de Azttlan/Alan Zabicky

 

 

 

 



publicado por Graça Costa Santos às 14:48
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